A violência que sofremos (ou Sobre o estupro parte 2)

Ainda há muitos desabafos para fazer, por isso vem aqui a parte 2. Porque muitos ainda lerão o primeiro artigo e não se convencerão. Assistirão ao vídeo que compartilhei e não se sensibilizarão.

Então vou contar uma história muito pessoal e íntima de violência, que nem todos que me conhecem sabem. Acho que nem minha família.

Quem me conhece sabe que não sou do tipo indefesa, frágil, delicada. Ou seja, não me encaixo nesse estereótipo da menina em risco. Porém, nem por isso deixei de sofrer com essa violência velada que as mulheres sofrem.

Caso 1:

Não foi a única vez, mas foi a primeira e me marcou muito. Principalmente pelas circunstâncias. Foi há muitos anos, quando eu estava no colégio técnico. Um dia, o ônibus estava bem cheio quando entraram algumas pessoas no meio do caminho. Eu estava meio dormindo, minha mochila no banco do lado. Instintivamente, removi a mochila para ceder lugar.

O homem que se sentou entendeu isto da pior maneira possível. entendeu que eu estava “oferecendo” o lugar para ele. E nessa interpretação, se sentiu no direito de, no meio da viagem, colocar suas mãos na minha coxa. Eu era uma estudante. Estava vestida com uniforme da escola (camiseta, bermuda e tênis). Foi a visão distorcida dessa pessoa que o levou a acreditar que podia colocar suas mãos em mim.

Na hora eu retirei as mãos dele, porém ele a colocou novamente. Repeti o gesto, no que ele tornou a colocar as mãos em mim. E, é claro, que parti para a verbalização e pedi para ele remover suas mãos imediatamente. Com isso, ele se mudou de lugar no ônibus.

O que eu fiz para que ele achasse que eu estava flertando com ele? E mesmo eu retirando suas mãos de mim, o que o fez pensar que eu estava fazendo um joguinho? Que estava me fazendo de difícil? Essa é a mentalidade torta dessas pessoas.

O meu caso não passou disso, mas o que faz com que um homem desse pare nesse tipo de ato e não prossiga para algo mais violento. Naquele caso, seria o ônibus lotado?

Caso 2:

Quem convive comigo sabe o quanto sou comunicativa, o quão fácil faço “amizades” em qualquer lugar que eu vou. Porém, nesse nosso mundo machista, isto é muitas vezes terrivelmente interpretado pelos homens como “flerte”. E foi exatamente isso que aconteceu nesse caso.

 

No voo, antes da decolagem, estava conversando com o passageiro ao meu lado. Conversamos muito sobre turismo, situação política no Brasil e nos EUA, trabalho, etc. Por algum motivo, ele achou que isto o daria o direito de, no meio da viagem, colocar suas mãos em mim.

Como no caso anterior, eu rapidamente cortei a ação. Ele entendeu e não fez nova tentativa.

Mas, novamente, o que faz com que os homens se dêem esse tipo de direito? Somente porque a pessoa foi simpática, comunicativa, isso significa que pode fazer isso?

Não entendem o quanto esse tipo de atitude é grosseira e invasiva? Tem noção de quanto eu, até hoje, em ônibus ou avião, a cada vez que um homem se aproxima do meu banco eu peço para que ele passe e que uma mulher se sente ao meu lado?

Parece uma coisa ridícula, pode até parecer que eu esteja exagerando, mas algum homem que estiver lendo esse artigo alguma vez passou por esse sentimento? Ou por esse tipo de invasão? Por acaso foi ser simpático em ceder seu lugar no ônibus e ela passou a mão na sua bunda?

Esse é o tipo de violência que sofremos o tempo inteiro. O estupro, é só o final triste para algumas dessas mulheres.

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