Sobre o estupro

Não, eu não vi o vídeo do estupro coletivo. Mas tenho visto muitas postagens com a hashtag 30ContraTodas. E tenho lido também muitos comentários acerca do assunto. E isto me incomodou profundamente, por vários motivos, mas o principal é que o foco da discussão, em determinado momento, mudou da situação geral de violência para discutir o caso específico da adolescente.

Mas, o que eu percebi é que, no fundo, a discussão toda está encobrindo a causa raiz do problema e muitas pessoas estão com enorme dificuldade de comunicar isto de forma objetiva. Não sei se conseguirei fazer isso ou se, no final, farei o mais do mesmo, mas a minha tentativa com este post é de “dissecar” a discussão e tentar mostrar, em outras palavras, porque o caso é tão repugnante – ou melhor, porque a discussão acerca deste tipo de violência é tão polêmica.

Primeiro, quero começar mostrando algo que sempre acho interessante. Existem 5 posicionamentos nesse assunto, quando vemos posts nas redes sociais:

  1. Os que defendem a vítima
  2. Os que defendem o acusado
  3. Os que acreditam que todo mundo está errado e, portanto, acusam todo mundo
  4. Os que não sabem no que acreditar e, por isso, se calam
  5. Os que tentam justificar a situação mudando o foco da discussão

Não vou buscar frase nenhuma em especial nos inúmeros posts que li, mas vou reproduzir algumas similares, para abrir minha dissertação e tentar dar voz aos que tentam explicar porque defender os acusados é tão ruim.

Primeiro, gostaria de dizer que não assisti ao vídeo do estupro coletivo. E não quero assistir. Até porque, meu foco aqui não é este caso específico, mas a questão cultural por trás envolvida. Então vamos às famosas frases.

“A vitima não tem culpa”

Essa é a primeira frase que os defensores da vítima usam. E sim, concordo plenamente com ela. Vítima nunca tem culpa. Por isso se entitula vítima. Vítima significa que um crime foi cometido contra ela. Em face da justiça, se a pessoa se apresenta como vítima de um crime, este deve ser investigado e julgado. Um dos possíveis resultados pode ser determinar, através de investigação policial, que não houve crime. Mas até que se prove isto, a vítima é isenta de culpa.

Acho até meio engraçado toda vez que um debate desse entra em curso as pessoas terem que bater tanto nessa tecla. Em uma notícia de roubo, furto, assassinato ou corrupção a vitima é facilmente identificada e defendida. Mas nos casos de violência doméstica, infantil, ao idoso, à mulher ou em casos de preconceito, a sociedade se divide rapidamente entre os defensores da vítima e do criminoso. De repente, a história tem duas versões e temos que olhar melhor para as duas.

“Ela achou o que estava procurando”, “Se veste de forma inadequada e depois reclama”

Essas são as mais famosas dos defensores do acusado. E são tipicamente machistas e preconceituosas. Para mim, elas só levantam a questão de que o caso não é o da violência em pauta, mas da dificuldade dessas pessoas assimilarem que houve uma mudança de paradigma social: todas as pessoas são iguais. Esta simples frase trás à tona várias questões que temos discutido na sociedade como um todo no que toca à igualdade.

Quando se trata de violência contra a mulher, geralmente essas frases escondem um traço machista, que ainda não aceita que a mulher deve ser tratada em grau de equivalência com o homem. É uma forma retrógrada de enxergar o mundo. Vêm de pessoas que não aceitam as mudanças no mundo. São as mesmas pessoas que, numa conversa informal, soltam frases do tipo: “mulher tem que saber pilotar fogão”, “mulher não precisa trabalhar”, “trabalho de mulher é cuidar da casa e dos filhos”. E por baixo disto tudo está escondido o pensamento: “se eu sustento a casa, e ela não me obedece, eu tenho o direito de tomar qualquer medida para controlá-la”. E esta é a semente da violência doméstica.

Outra coisa importante por trás dessas frases é o pensamento de que a mulher é totalmente responsável pelo comportamento troglodita, impulsivo e desrespeitoso do homem. Bem, se as pessoas são iguais, os homens não devem aprender a controlar seus impulsos?

Se ele não consegue se controlar, daí pode até ser um problema psiquiátrico. Ele pode ser um psicopata. Mas para vivermos em sociedade, existem regras que devemos seguir. E elas valem tanto para homens quanto para as mulheres.

Quando eu ouço ou vejo frases como essas, meu primeiro impulso é contradizer com algo como “se ela sofreu a violência é porque algum homem sem moral também estava procurando uma boa desculpa para soltar seus instintos”.

“Se envolveu com o tipo de gente errado”

Essa foi uma que vi hoje em relação ao caso do estupro coletivo e é ótima, porque é usada também quando alguém é assassinado e descobre-se que era dependente químico.

É uma maneira de semi-defender a vítima, porque a coloca como criminosa consciente. Como se o fato dela estar em “má companhia” justificasse o fato da outra parte ultrapassar os limites sociais e éticos e cometer um crime de violência. Então, se uma pessoa é assassinada porque usava drogas, seu assassino é menos culpado do que o que matou um “cidadão respeitável”?

Outras coisas que achei “interessantes” no caso mais recente é o fato de pessoas começarem a cavar informações da vítima para tentar provar que não houve crime ou que o histórico pessoal dela “atenua” o crime. Uma pérola foi “ela já participou de sexo grupal antes”. Outra “com 13 anos já tinha filho”.

Nossa, super legal, hein? Então porque ela já teve sexo consensual antes, ou porque ela já tem filho, não podemos classificar o caso como crime de violência. Super troféu joinha para quem acredita nisso. Nessa lógica torta, só virgem é que sofre estupro?

“Homens nunca conseguirão sentir o mesmo que mulheres sobre esses casos”

Outra coisa que me revolta é que falta muita empatia com a vítima. O fato de um homem não conseguir imaginar o que é o medo de ser estuprada que toda mulher sente, ou já sentiu fortemente em algum momento da vida, é porque não vemos divulgados esse tipo de crime contra homens. E isto acontece muito também! Estupro não é exclusivamente um crime contra a mulher.

Mas, assim como com a mulher, qualquer pessoa que sofra esse tipo de crime tem tanto medo de se pronunciar e ficar marcado, que o crime segue impune, escondido. E a vítima tem que lidar com as questões de trauma sozinha.

E o homem não sente esse medo também porque ele é criado para se sentir auto-suficiente. Ele tem noção da força que tem e sente que, numa situação de exposição à violência, conseguirá se defender. Para a mulher o cenário é diferente. Ela é criada para ser frágil. Quantas meninas fazem artes marciais na infância? O homem é criado desde cedo para se defender. A mulher, não. Os pais ensinam os meninos a lutar desde pequenos. Já às meninas, ensinam a ser delicadas, a não erguer a voz, a não brigar “porque é feio”.

Mulheres ouvem com muito mais frequência de seus pais frases como “não fale desse jeito”, “peça desculpa”, “não bata”, “seja mais delicada”, “não reaja”. Não temos chance desde o inicio.

Outra coisa muito comum é que desde pequenos os homens são “bons” porque tem namoradinha na escola com 3 anos de idade. Ou porque “se defendeu” numa briga. Ou porque “roubou” um beijo de uma menina numa festinha.


Quero finalizar com um vídeo muito bom que circula na internet que explica exatamente tudo isto. Foi um dos melhores vídeos que eu já vi sobre o assunto, pois mostra como a questão é cultura e cíclica:

O vídeo termina com uma frase emocionante, que resume bem a mensagem que eu quero deixar:

“Querido papai, eu vou nascer uma menina. Por favor, faça tudo que estiver ao seu alcance para que este não seja o maior perigo que eu vá sofrer” (Dear Daddy, Care Norway, tradução livre).

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