Movimento Acorda Brasil em Campo Grande-MS

A onda de manifestações das últimas semanas chegou a Campo Grande-MS. No domingo 16 de junho aconteceu a primeira reunião. Não compareci pois na chamada do Facebook não ficou claro para mim o que eles queriam fazer. Depois fiquei sabendo que era para definir as ações da semana. Tudo bem.

Um dos resultados dessmanifestacao_20Junho13a reunião foi a definição de que seriam realizadas manifestações populares na quinta, sexta e sábado. Foram criados os eventos no Facebook. Mais de 200mil pessoas foram convidadas pela rede; mais de 40mil responderam o chamado na rede social. Na primeira manifestação, compareceram às ruas entre 40mil a 60mil pessoas – há controvérsias quanto aos números. Eu estava lá e digo: não havia menos que 40mil pessoas na rua.

Essa foto aqui ao lado é da Avenida Afonso Pena com a Rua José Antônio, onde temos um obelisco. Fica duas quadras depois do ponto principal de encontro da manifestação – A Praça Da República, conhecida como Praça do Rádio. Esta avenida foi ocupada nas duas faixas de trânsito, com muitas pessoas nas calçadas e no canteiro central, onde tem calçamento. Para quem não conhece a cidade, a Avenida Afonso Pena tem cerca de 12km de extensão, dos quais percorremos cerca de 6km, tem quatro faixas de trânsito para cada sentido. Ou seja, ela é bem grande. Minha estimativa é de que havia populares ocupando cerca de 1km de extensão da avenida, nos momentos em que ficamos parados. Eu estava quase no meio da multidão quando chegamos ao Shopping Campo Grande; consegui ver o começo da multidão (umas duas quadras à minha frente), mas quando me virei, não consegui ver o final.

Não havia policiamento pesado. Havia policiais em motocicletas, agentes da Agetran (Agência de Trânsito) e da Defesa Civil. Só.O que faltou foi muita organização. É natural que, ao reunir um número tão expressivo de pessoas, tenha-se a ilusão de controle. Não existe controle. Do ponto em que eu estava, não conseguia ouvir os gritos de ordem do pessoal que guiava o povo. Nos prédios, os moradores nos apoiavam piscando as luzes das salas ou varandas. Fogos de artifício e rojões eram acendidos pelos manifestantes de tempos em tempos. Três vezes nos sentamos na rua aos gritos de “Sem violência!”, “Sem vandalismo!”.

Ao chegar no Shopping, ficamos totalmente perdidos. A informação que eu tinha era de que iríamos para a Câmara dos Vereadores, mas na hora a multidão seguiu reto até o shopping. Muita confusão. Algumas pessoas queriam ir até as obras do Aquário Municipal, outras até a Câmara (ambas estavam a menos de 1km de distância). Na falta de orientação, decidimos ir embora. Soube mais tarde que houve confusão após a dispersão: quando a polícia liberou o trânsito na avenida, vândalos se aproveitaram da oportunidade e depredaram um ônibus que estava circulando em sua rota. Carros foram vandalizados nas ruas próximas ao roteiro da manifestação.

Eu saí da manifestação com uma sensação de orgulho muito grande pois toda nossa sociedade estava representada: havia famílias inteiras na rua gritando; jovens, crianças de todas as idades, cadeirantes, representantes de todas as gerações, de todas as profissões. Por outro lado, saí muito decepcionada com a falta de Liderança e Organização demonstrada. Não consegui conversar com os organizadores, como eu pretendia. O evento no Facebook é uma bagunça total. Não está claro exatamente qual o objetivo da manifestação. Para começar, reunir a população, acho que a estratégia foi ótima. Mas a maioria das pessoas, e eu inclusa, esperava na hora uma Liderança Organizada e que sabe o que quer manifestar. Um grupo que iria puxar a multidão, mostrando que é diferente do que os líderes atuais que temos que só utilizam a população como massa de manobra. Que iria nos mostrar que estão alinhados com nossas reivindicações.

Uma coisa que eu não gostei foi ler na página do evento que uma das lideranças dizia que “não há liderança”. Como assim não há liderança? O que eles entendem por liderança? O próprio fato deles terem iniciado o movimento, organizado as reuniões, definido as datas, criado página no facebook os torna liderança do movimento. Para mim, dizer que não há liderança é demonstração de hipocrisia e covardia. Hipocrisia porque quer se aproveitar da ignorância da população que confunde o conceito de liderança com oportunismo para ser seguido – virou oportunista. Covardia porque não quer assumir a responsabilidade por representar a população perante uma mesa de negociações; não quer assumir a responsabilidade por decidir o rumo desse movimento.

Na sexta não compareci. Inúmeras coisas me fizeram decidir por não ir. Várias delas descrevi aqui. A sensação de que era somente “oba-oba” foi uma delas. A postura da organização, ou de quem é porta-voz da organização, do movimento em Campo Grande teve grande peso na minha decisão.

O fato é que o movimento perdeu força na sexta-feira. Pelo que conversei com várias pessoas, os motivos eram muito parecidos com os meus. É isso aí! Agora sim eu acredito que o “Gigante despertou”. As pessoas estão criticando, pensando por si próprias, chegando a suas próprias conclusões!

Infelizmente, se aproveitaram do número pequeno de manifestantes e os oportunistas se sobressaíram. Atiraram pedras nos policiais (ninguém confirma isso, mas pessoas que encontrei ontem e que estavam na manifestação disseram que isso ocorreu), invadiram a Câmara Municipal e quebraram portas, vidros, queimaram documentos. E para que? 11 foram presos.

Estava decidida a comparecer no sábado. Foi ótimo eu ter comparecido. Muitos não foram porque o pessoal da legalização da maconha marcou passeata para o mesmo horário. Não recrimino quem não foi. Aplaudo a decisão. Eu fui, mesmo sabendo da questão da maconha. Meu objetivo era outro: era falar com os organizadores do movimento Acorda Brasil.

O que eu vi foi desolador e, para variar, me decepcionei com nossa liderança e com nossa população. Assim como na quinta-feira havia representatividade de toda a população. As famílias compareceram. Mas os políticos também. Como o objetivo não está claro, qualquer objetivo é válido.

Algumas pessoas da organização estão com o objetivo claro: Reforma Política. Outros, nem tanto. Ouvi novamente o discurso “aqui não tem liderança, somos só 20 pessoas organizando”. Hipocrisia de novo, não! Falei mesmo que achava isso hipócrita.

Outros “líderes” surgiram: gente falando em Passe Livre. Não sou contra o passe livre, mas já ouvi esse disco. E foi por causa dessa música que eu mudei meu ativismo político. Já fui lesada por conta desse discurso, assim como todos os estudantes campineiros de 1992. Aplaudi quando a prefeitura dissolveu a UCES (União Campineira dos Estudantes Secundaristas) – bando de canalhas aproveitadores.

Ontem ouvi novamente este discurso e apelei: temos uma pauta mais importante, estrutural para seguir. Também quero poder andar gratuitamente de ônibus – quem não quer? Mas agora não é o momento de colocar isto em pauta. E quando vai ser, Vanessa?

Quando tivermos:

  • Uma Educação Pública com aula em período integral para todos os alunos, onde os professores são bem remunerados, possuam pós-graduação e ofereçam um ensino universal e integrado aos estudantes;
  • Uma Saúde Pública que ofereça TODOS os serviços de saúde, com uma espera por atendimento similar ou melhor à que vemos nas clínicas particulares;
  • Uma Segurança Pública onde não tenhamos medo de dar “bom dia” aos policiais;
  • Uma Previdência Pública digna de um cidadão que cumpriu seus deveres e produziu para o país ao longo de, no mínimo, 30 anos, e espera reconhecimento por sua contribuição.

Daí, sim, podemos começar a pensar nas pautas secundárias e periféricas que ampliam o conforto da população. Até lá, essas pautas devem permanecer SECUNDÁRIAS. Elas são, sim, importantes, mas antes precisamos garantir o básico.

Pedir Passe Livre nesse momento, assim como outras pautas que estão colocando nas manifestações Brasil afora, é voltar ao populismo, garantir o imediatismo de soluções esperado pela população ignorante. É fazer o mesmo que os tão odiados políticos atuais e passados fizeram e que tanto reclamamos.

Ouvir a população, ontem, repetir em jogral o que a pessoa no palanque dizia foi revoltante. Gritar e apitar por qualquer pauta. Só me mostrou que a população está despreparada e continuará a ser manipulada pela sua liderança. E o pior: eles nem estão percebendo isto.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s