Filme/Livro: Pride & Prejudice

Não sou crítica de filmes nem de livros. Estou longe de ser especialista nisto. Essa é somente a minha opinião sobre esse filme e livro.

O filme foi lançado em 2005 e conta com Keira Knightley e Matthew Macfadyen, nos papéis principais, além de Donald Sutherland e Judi Dench em papéis de apoio. O filme é baseado no livro de mesmo nome da Jane Austen. E não é a primeira versão cinematográfica.

Quando foi lançado, a crítica foi dura com Knightley e Macfadyen: casal sonso, falas cansativas. A mais famosa é da cena onde Lizzy abre mão do seu orgulho e aceita o amor de Mr Darcy. A declaração “I love, love, love you”, foi considerada extremamente piegas e os atores foram acusados de deixarem a desejar na atuação.

Eu não acho. E explico o porquê. Para mim, essa crítica não levou em consideração uma série de pontos importantes. A produção não é americana; isto já tira uma enorme vantagem do filme, pois os críticos não gostam muito de cinema europeu. A segunda é que, até por não ser americana, não segue a tal da receitinha básica. Terceiro, a história não é sobre o romance entre Lizzy e Mr Darcy! É sobre todos os aspectos psicológicos e as convenções sociais que ambos tem que sobrepor para que o romance possa acontecer. No filme isto fica muito evidente pois ele termina exatamente com o momento em que ambos aceitam as diferenças e poem de lado tudo o que move seu orgulho e seus preconceitos para fazer acontecer.

Eu não havia lido o livro até recentemente, mas sou fã incondicional dessa versão do cinema. Já assisti mais vezes do que eu deveria😉

Não só pelo romance. Mas Lizzy é a heroina da história. Praticamente tudo ocorre sob seu ponto de vista. Suas opiniões fazem o leitor/expectador mudar de opinião a respeito de tudo conforme ela amadurece suas próprias opiniões. Ela é extremamente decidia, principalmente se considerarmos que a personagem é uma jovem inglesa do século 19. Sabe muito bem o que quer e não tem medo de expressar-se para ninguém – a cena do jantar em Rosings quando educadamente se recusa a dizer sua idade a Lady Catherine é fantástica. Mas isto tudo sem ser educada, sem erguer seu tom de voz. Fantástico!

Ela possui o apoio incondicional do pai, principalmente quando está sob fortes pressões da mãe para ceder às convenções sociais. Sua felicidade está acima de tudo. Ela sofre por ter uma família que não entende o limite de fronteiras das pessoas e possui pouca etiqueta, apesar disto não incomodá-la no dia-a-dia, mas que a embarassa nas situações sociais em que envolve Mr Darcy e Miss Bingley, principalmente. Não muito porque a família a envergonha, mas porque seu orgulho fica ferido ao perceber o quanto essas características desagradam Miss Bingley e o quanto sua opinião pode prejudicar Jane.

A evolução do sentimento de Lizzy em relação a Mr Darcy é no mínimo interessante. Apesar de que no filme não se consegue captar com tanta intensidade quanto no livro. E mesmo sendo um desfecho óbvio – todo mundo sabe que eles vão terminar juntos -, a forma como isso vai se construindo ao longo da estória é interessante.

O personagem Mr Darcy permanece um grande mistério por vários trechos. Ele é totalmente discreto e não deixa seus sentimentos interferirem na sua postura em nenhuma situação social. Ele raramente sorri, dando a impressão de que nunca está gostando do ambiente e das pessoas. Pelo menos, é assim que Lizzy o vê.

A cena que que eu mais gosto é o primeiro embate dos dois, quando Mr Darcy se declara a Lizzy. O orgulho de ambos bate de frente. Ele, com tamanha dificuldade de se expressar, luta consigo mesmo e no meio de uma fala torta, cheia de sentimento, orgulho, medo, abre seu coração. O problema é que Lizzy coloca não somente seu orgulho mas tudo o que imagina estar por tras daquela fala intricada, todos os preconceitos que ela aplicou para formar o que entende ser a personalidade de Mr Darcy. E responde à altura. Ele, dizendo que ela não é a escolha apropriada para noiva. Ela, dizendo que nunca amaria uma pessoa que voluntariamente destroi a vida de outros sem considerar seus sentimentos.

É um diálogo de titãs. A primeira vez que o pobre rapaz consegue superar seus sentimentos, e Lizzy lhe devolve um enorme balde de água fria – consciente.

As frases que eu mais gosto no livro, lá pela metade da estória, pois são o ponto de mudança mais importante no comportamento de ambos:

Mr Darcy, at Rosings: “I certainly have not the talent which some people possess of conversing easily with those I have never seen before.”

Mr Darcy: ” In vain I have struggled. It will not do. My feelings will not be repressed. You must allow me to tell you how ardently I admire and love you.”

Lizzy reply: “I am sorry to have occasioned pain to anyone. It has been most unconsciously done. (…) You chose to tell me that you like me against your will, against your reason and even against your character? (…) you are the last man in the world whom I could ever be prevailed upon to marry”

É Mr Darcy pisou feio na bola. E Lizzy não perde oportunidade de humilhá-lo com sua resposta. E tudo isso pra que? Imediatamente depois, seu arrependimento é tamanho que passa horas trancada sozinha pensando em tudo. Ela o acusa de ser tudo o que ela criou como personalidade para ele. Ele não revida. Simplesmente se recompoe e escreve uma carta se defendendo das falsas acusações. A carta desarma Lizzy de vez, mas ela não pode ceder agora ao seu orgulho. Ela deve manter sua postura. Porém, isto a despe de seu preconceito em relação a ele e começa a enxergar outras pequenas atitudes. Ela começa a vẽ-lo como uma pessoa gentil, sensata. Eles se encontram em outras ocasiões mas ele não mais toca no assunto. Isso a deixa em xeque pois ela não sabe exatamente como responder a isto e como se comportar diante dele.

Muito tempo passa nesse jogo de reconstrução dos dois personagens.

E mesmo depois de tudo o que ela lhe falou, e que ela se arrepende por muito tempo, ele vem ao seu encontro com essa:

“You are too generous to trifle with me. If your feelings are still what they were last April, tell me so at once. My affections and wishes are unchanged, but one word from you will silence me on this subject for ever.”

Lindo, né? Jane Austen não escreve a resposta de Lizzy. Ela deixa que o leitor imagine o que ela respondeu. É uma confusão de sentimentos, e o fato de Lizzy aceitar é tão mais importante que palavras, que somente os gestos e expressões ficam gravadas.

No filme, eles colocam uma frase simplória e uma ação no mínimo submissa, que contrasta com o personagem de Lizzy. Mas no livro, você recebe um turbilhão de sentimentos e dá até pra sentir o que ela está sentindo naquele momento. É uma cena memorável. A felicidade que jorra de Mr Darcy e o peso que é liberado das costas de ambos é tamanho que o leitor se sente leve.

A partir daí, nada é obstáculo para eles. O pai de Lizzy fica atônito com o pedido de casamento, mas Lizzy agora vê tudo com tão bons olhos que seu pai responde com toda emoção sobre a perda de sua filha mais querida.


Tá ok. Não sei se consegui explicar o porque que eu gosto tanto do filme e do livro. Mas em partes eu me identifico muito com Lizzy. A personalidade forte dela, o pai que sempre a apoia em tudo. A mãe que a força a seguir convenções sociais com as quais ela discorda ou não concorda plenamente. A sua postura nos bailes, onde ela aproveita a vida ao máximo, mas sem se envolver emocionalmente com ninguém. E até discursa sobre isto. Mesmo sentindo seu orgulho ferido quando deseja que Mr Darcy a convide para dançar e ouve ele dizendo que ela não lhe agrada. O conflito interno de sua postura perante a família. A etiqueta que ela escolhe utilizar para se misturar aos Bingley, mas que sua família considera de pouca importância.

No filme ela não conta nada a Jane, mas no livro ela abre tudo o que aconteceu. Mesmo assim, esconde seu sentimento da sua irmã e confidente. E o medo de falar abertamente, não só com Jane, mas também com Mr Darcy sobre seu real sentimento em relação a ele e o que ele irá pensar dela quando isto acontecer.

Austen constrói um emaranhado de situações onde coloca propositadamente os dois no mesmo local, sugerindo (e algumas vezes explicitando) que Mr Darcy sabe de todos os passos de Lizzy e os segue voluntariamente, aguardando o melhor momento de se abrir para ela. Darcy conquista Lizzy, muito mais pelas suas atitudes e demonstração de afeto ao que afeta Lizzy (indiretamente), do que executando ações que a envolvam diretamente. Essa demonstração de afeto pelo seu bem estar é o que vai abrindo o coração da moça e que culmina no turbilhão de sentimentos e na aceitação incondicional um do outro.

A simbologia usada, de forma bem sutil, das estações do ano fica muito bonita como cenário de fundo. Eles se conhecem no inverno. Ele se declara na primavera. Eles se aceitam no outuno. Tudo leva um ano para ser concluído. Os sentimentos são mudando conforme as estações.

É tudo extremamente romântico. E é claro que tudo dá certo no final🙂

Ah, e é claro que assistir ao filme sempre me acalma, pois ao final me deixa com a sensação de que as coisas vão dar certo e que mesmo com tantos obstáculos, as pessoas podem superar seus orgulhos e preconceitos e dar lugar a algo novo.

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